quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Dentre todos os sentimentos que podem existir, o que mais me preocupa é a indiferença (se é que isso pode ser chamado de "sentimento"). Também acompanhada pelo desdém, pelo desprezo, pela desconsideração, pela apatia e insensibilidade. É o não sentir, o não se importar, o não doer, o não alegrar. Ta certo que a indiferença, de certa forma, é parte da vida, afinal, que turbilhão de ideias seria nossa cabeça se não relevássemos e não nos deixássemos ocupar por coisas que não nos dizem algum respeito. Mas a indifrença que aqui atribuo é aquela gerada pela vida, pela existência... Melhor dizendo: pela experiência. 
O ser humano tem esse tal de "sistema de defesa" que utiliza, na maior parte das vezes inconscientemente, pra se defender de algo prejudicial, e atrás do qual, muitas vezes, se esconde. Aqui não me refiro ao biológico, ao famoso "sistema imunológico". Não. Refiro-me a esse "sistema de defesa psicológico", que cada um subjetivamente (ou seria objetiva?) constrói e aplica em situações que considera de risco. Seja a agressividade frente a impossibilidade de controle; o choro frente ao medo; o riso frente ao desespero; a ironia frente a raiva, enfim, ele sempre se manifesta. Mas dentre esses nenhum me assusta mais do que o distanciamento, o "endurecimento do coração", como costumam dizer por aí, essa tal de insensibilidade. Essa forma de nos defender daquilo que dói, que nos causa medo, desconforto, incômodo, que pouco a pouco nos tornam pessoas frias, sem sentimentos. Diria até que, em certo ponto, é uma atitude covarde de quem não quer encarar certas situações de frente e preferem jogar tudo pra dentro, até calejar, até esfriar, até não sentir. Isso pra mim é sinônimo de doença. 
Nossa pele é composta por receptores de dor, que nos avisam quando um componente, externo ou interno, está nos prejudicando e nos incita a agir, fazer algo a respeito. No entanto, quando nossa pele entra em contato com um estímulo que, naturalmente, deveria causar dor e não sentimos nada, é necessário que se façam exames para diagnosticar a causa, que normalmente é alguma disfunção ou doença. Da mesma maneira é a indiferença. Começa pequena, ignorando um fato aqui, outro sentimento ali e pouco a pouco ela se instala e nos corrói até que dificilmente algo nos sensibilize, nos arranque de nossa zona de conforto. 
Muita gente argumenta que as vezes é melhor ser assim, porque pelo menos não há sofrimento em um episódio de frustração ou perda. Mas a verdade é que a indiferença, em determinado ponto, destrói a vida. É difícil largar ou perder aquilo que se ama, aquilo que se quer. Naturalmente nossa primeira resposta em relação a dor que isso nos causa é lutar para reverter o quadro, é nos movimentar. Mas se não tiver como então passaremos pelo processo natural de perda ("depressão", tristeza, aceitação, superação). Ja o ódio, embora negativo, também é um sentimento que não nos permite esquecer fácil, que toma nosso tempo, nossas energias, nossas forças. Mas a indiferença não. Ela não se importa com sentimentos, ela simplesmente deixa ir aquilo que já não quer ou não pode mais ficar. Não liga, não implora, não se entristece, não grita, não se alegra, não reclama... E não bastasse isso, suprime e sufoca no início qualquer sentimento que busque se instalar. Assim ela não nos permite criar vínculos, raízes. Não nos permite nos solidarizar, nos arriscar, nos movimentar. Arrisco dizer que ela chega até mesmo ser pior do que o orgulho.
"O amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto". Martha Medeiros

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