quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Aquarela - Toquinho e Vinícius de Moraes

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva

Se um pinguinho de tinta cair num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.
Vai voando, contornando a imensa curva norte e sul

Vou com ela viajando o Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco à vela branco navegando
é tanto céu e mar num beijo azul.

Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo, sereno e lindo
E se a gente quiser....... Ele vai pousar.

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida
De uma América a outra eu consigo passar num segundo
giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo

Um menino caminha e caminhando chega no muro
e ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está.
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar

Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
e depois convida a rir ou chorar

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
de uma aquarela que um dia em fim
Descolorirá....

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo ... (que descolorirá)
e com cinco ou seis retas é facil fazer um castelo ... (que descolorirá)
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo.(e descolorirá)

domingo, 27 de setembro de 2009

Nunca estou sozinha!

Olhou para a sua direita: nada. Voltou-se para a esquerda: nada. A mesma coisa que encontrou ao seu lado ocupava o espaço a sua frente e atrás dela: o nada. O único barulho que se podia ouvir era o gritante barulho do silêncio e a única voz que quebrava a barreira do som era a sua. Seu reflexo no espelho era a sua única companhia, a solidão quase a envolvia completamente. Sentou-se na cama aflita, "onde estão os outros?" eram as palavras que ecoavam em sua cabeça. Encontrou-se sozinha e com medo, olhou para dentro de si e para não dizer que ali também não havia nada, lhe restava um pouco de força e esperança, embora ao lado de fora a desistência insistia em querer entrar. Com a força que lhe restava, fechou os olhos e suspirou.
-'Não temas, porque Eu estou contigo'[1] - sussurou uma voz serena e aveludada.
Agora ela se sentia mais segura e em paz, ela sabia de quem era aquela voz.
- "Eu estou com medo, me sinto sozinha, não quero mais ficar aqui!" - confessou envergonhada.
- 'Não temas, porque Eu estou contigo[1] - repetiu a voz - 'Não te deixarei e nunca te desampararei. [2]
- "Eu estou cansada!"
- 'Eu te farei descansar' [3]
- "Ja não sei mais para onde ir"
- ' Eu te ensinarei o caminho' [4]
- "Salvo poucos, a maioria aqui não sabe amar"
- 'Mas Eu te amo! E estarei contigo, não importa quando, onde e como Eu estarei bem ao seu lado, porque como cada um dos outros, você é única e especial para mim e eu jamais desistirei de você!'.
Ela sabia que aquilo era verdade, ja sem mais o que argumentar, tratou de enxugar as últimas lágrimas que rolaram pela face e ja não se sentia mais sozinha. Sabia que não estava. O vazio fora preenchido por paz e alegria, e a solidão largou de atormentá-la.



1: Isaías 41:10
2: Hebreus 13:5
3: Matheus 11: 28-30
4: Salmos 32:8

domingo, 20 de setembro de 2009

Despedida#


"Eu vou, mas volto pra te buscar" - ela disse com a voz trêmula e lutando contra a água que insistia em encharcar seus olhos. 'Eu não quero que você volte, eu quero que você não vá' - insistiu a pequena menina de olhos azuis antes de se jogar no colo da mulher de pele translúcida e cabelos claros. 'Não me deixa aqui' - sussurou entre soluços; ela odiava despedidas, não queria dizer adeus, mesmo que ele significasse apenas um 'até logo'. Com o coração na mão, a mulher a envolveu em um forte abraço, segurou-a pelos braços, lhe beijou docemente a face e com um leve suspiro se pôs de pé, deu-lhe um último olhar e foi caminhando para trás "eu vou voltar" prometeu com o movimento dos lábios e virou-se antes que as lágrimas começassem a rolar. Antes que pudesse chegar ao carro, sentiu um leve baque e algo envolvia sua barriga, algo pequeno, macio e magro. A menina estava disposta a fazer de tudo para impedi-lá de entrar naquele carro 'Eu PRECISO de você' - suplicava com a voz abafada pelo choro. A mulher, que procurava forças para fazer o certo virou, com a face tomada pelas lágrimas e pela dor, segurou delicadamente o rosto da menina, olhou em seus olhos, e com a voz mais serena que pôde fazer, disse "E eu preciso mais ainda de você! Mas muitas vezes somos obrigados a fazer o que não queremos para o bem daqueles que precisam de nós, eu não estou indo embora, imagine que iremos fazer uma viagem, e eu apenas estou indo na frente para preparar as coisas. Assim que tudo estiver pronto, eu venho te buscar!" - a voz agora já trêmula - "não importa onde eu esteja, nós estaremos sempre juntas aqui" - e em um gesto sutil, encostou a mão no lado onde se encontra o coração e por fim sussurrou "eu te amo" - beijou-lhe mais uma vez a face, um beijo de carinho, afeto, dor, sorriu docilmente, entrou no carro e se foi. 'Eu também te amo, mãe' sibilou a menina enquanto assistia o automóvel se distanciar e se perder ao virar a esquina.