segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Amor romântico e amor genuíno | Jetsunma Tenzin Palmo on romantic love


Em apenas 4 minutos, Jetsunma Tenzin Palmo nos agracia com uma das mais belas definições do que é o amor, o verdadeiro amor, que se difere do afeto. É uma lição que temos de aprender, relembrar e praticar todos os dias, até que de fato a compreendamos e passemos a vivê-la, enquanto verdade, enquanto naturalidade. É difícil superar essas palavras, quando elas já dizem tudo. Mas sempre vale refletir sobre.

Atualmente somos cercados por diversos mecanismos de controle e por uma confusão entre o real e o privado. Não conseguimos, por vezes, delimitar aquilo que é nosso, aquilo que é do outro; o que deve ser exposto, o que deve ser protegido e guardado. E os relacionamentos não escapam dessa bagunça. Cada vez mais parece que tentamos construir relacionamentos simbióticos, buscando sermos um só pensamento, um só passo, um só caminho, um só ser.  Confundimos o eu, o outro e o nós. Não que estar em concordância e ter determinadas metas e pensamentos em comuns não seja essencial, mas não devemos nos anular e nem querer que o outro se anule. Nesse ritmo, acabamos - as vezes até sem querer - querendo compartilhar (ou controlar?) as relações do outro, as conversas no facebook, no whatsapp, as mensagens, as ligações... Nos incomodamos até quando outra pessoa o faz rir. Acontece que ao longo de nossas vidas sonhamos com um modelo idealizado de par, alguém que irá suprir nossas necessidades, atender aos nossos desejos, e quando admitimos defeitos, até estes queremos ditar. Então nos deparamos com a realidade e nos frustramos. Essa mania de controle e de completude se transformam em ciúmes, brigas, choros... Então esperneamos, e mais uma vez nos despedaçamos. O que poderiam ser momentos de alegria, de compartilhamento, de experiência, de confiança se transforma em angústia, em sofrimento, em agonia. Quanta agonia, que a imaginação insiste em aguçar, insiste em transformar tragédia aquilo que os olhos não podem ver... Aquilo que não podemos controlar! Então mais uma vez não da certo. Os motivos são diversos, mas normalmente estão relacionados com a nossa incapacidade em desconstruirmos esse ideal e reconstruí-lo, a abrir espaço para novas possibilidades, diferentes formas de ser. Estão relacionados ao nosso desejo de controle, a nossa insegurança, a nossa ilusão de relacionamentos enquanto posse. Queremos que o outro atenda as nossas necessidades, e por vezes nos esquecemos de perguntar e nos questionar sobre quais são as deles. Vejo isso como característica da uma sociedade individual, que pensa no bem estar próprio sempre muito acima dos outros, que busca a própria felicidade... o tal do carpe diem. "Temos tão pouco tempo"... E através desse discurso é que se procura justificar muitas coisas. Esquecemos que amar é muito mais do que sentir, é muito mais do que suspirar e se encantar... Amor é escolha! Amor é ação. Amar é doar-se, é querer que esse outro seja feliz, independente se ao nosso lado ou não. O verdadeiro amor não busca os seus próprios interesses, já diz em 1ª Co 13. Antes de tudo, temos de olhar para o outro enquanto ser vivo, enquanto humano: ser que sonha, deseja, sofre, erra, tem vontades, momentos, emoções... Assim como nós! Devemos olhar para o outro enquanto SER LIVRE. Não devemos procurar a metade da nossa laranja, a tampa da nossa panela, não devemos nos enxergar enquanto metades, e nem aos outros enquanto tais! O que quero dizer é: não devemos esperar e procurar por alguém que preencha o vazio que existe em nós, que resolva nossos problemas e cure nossas mazelas. Quando fazemos isso nos destituímos da responsabilidade por nós mesmos, por quem somos e queremos ser. Abrimos mão da autonomia sobre nossa vida. Nos tornamos desnecessariamente frágeis. Simplesmente depositamos nossos sonhos, desejos e esperanças no outro, esquecendo de que ele é apenas humano... Tanto quanto nós. Precisamos então encontrar alguém que some conosco, que de alguma forma nos ajude nessa caminhada, mas enquanto parceiro, enquanto companhia! Alguém que esteja ao nosso lado porque quer, e não simplesmente porque "não teve escolha", já que não escolheu nos amar. Nenhum discurso me assusta tanto quanto esse! Remete a mim a ideia de prisioneiro, e não de viajante que para e se estabelece porque quer, porque decidiu que era hora! Ao nos relacionarmos que sejamos inteiros!

Precisamos aprender, portanto, que assim como afirma a guru Jetsunma Tenzin Palmo, amar não é segurar firme, forte e não deixar que escape... Quem tenta escapar é prisioneiro! Mas amar é deixar livre, para que vá, circule, e permaneça onde encontrar a felicidade! Precisamos confiar nesse amor, confiar nesse alguém que se coloca ao nosso lado. Eu sei que, ao nos depararmos com a realidade, com tantas histórias de traições, descasos, descuidos e frustrações, agir assim se torna mais difícil. Vivemos com o pé atrás, de termos encontrado lobo em pele de cordeiro. Mas a verdade é que também as frustrações fazem parte da vida... Não podemos controlá-las! Não devemos nunca nos culpar por confiar, por amar, por fazer o bem. Nem nos arrepender. Acredito que isso também faz parte do amor: se expor! E não podemos fugir disso. É verdade que com essa exposição nos sentimos vulneráveis, por vezes inseguros, e então queremos assumir o controle: garantir que o outro não vá nos machucar. E essa falta de privacidade só tem facilitado esse sentimento, essa ansiedade: sabemos quando alguém recebeu uma mensagem, quando a visualizou (e não respondeu), quando entrou na rede social, quantas horas faz desde que mexeu no celular pela última vez, etc. Isso quando não queremos saber com quem conversou, o que, quando, onde, porque. As vezes não percebemos que quem mais sofre com isso somos nós mesmos. Amar é confiar. Confiar que o outro cuidará do que você dá a ele. Mas não agarre com força... Deixa que flua! A decepção é uma possibilidade, mas a recuperação é ainda mais possível quando entendemos que o amor deixa ir e deixa livre, e escolhemos nos amar. Escolhemos ser amor. Quando escolhemos compartilhar com o outro esse amor, e não esperamos que ele o construa. Precisamos nos libertar e nos permitir ser livres. Precisamos nos permitir ser feliz!

Lanço a mim mesma um desafio: todo dia, escolher amar. Todo dia, escolher ser amor.



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